Uma amiga manda mensagem à meia-noite: "Acho que estou na minha fase da Torre". Ninguém pergunta de qual baralho ela fala. Ninguém precisa. A Torre virou atalho para um certo tipo de semana, e o curioso é quanto as pessoas entendem com poucas palavras.
Esse atalho merece ser levado a sério. Os vinte e dois Arcanos Maiores são mais antigos que o vocabulário que hoje tomamos emprestado deles, e duram porque descrevem situações, não pessoas. Então aqui vai um jeito simples e prático de usá-los. Não "qual carta você é?", mas em qual carta você está agora?
Uma fase, não um tipo de personalidade
Um teste de personalidade te classifica uma vez e entrega uma etiqueta. Os arquétipos fazem outra coisa. No nosso texto sobre Jung acompanhamos de onde vem a ideia; aqui só precisamos da consequência cotidiana: um arquétipo é um papel que a vida distribui várias vezes. Quem está começando. Quem segura tudo. Quem precisa esperar. Ao longo da vida você vai interpretar quase todos, e num único mês pode interpretar três.
Por isso a pergunta útil não é o que você é, mas o que está pedindo algo de você agora. Uma carta se parece menos com um tipo e mais com o clima. Dá para se vestir para ele, ele pode te pegar de surpresa, e ele muda.
Um guia prático dos vinte e dois arquétipos
Leia a lista devagar. A maioria das pessoas reconhece duas ou três de cara, e uma delas com uma pequena careta.
- O Louco: você disse sim a algo cujo fim não enxerga, e está fazendo mesmo assim.
- O Mago: tudo o que você precisa está sobre a mesa, e só falta decidir começar.
- A Sacerdotisa: você sabe algo que ainda não consegue provar, mas ainda não está na hora de explicar.
- A Imperatriz: você está fazendo crescer, alimentando ou criando algo, e isso pede mais a sua paciência do que o seu plano.
- O Imperador: você está estabelecendo regras, estrutura e limites, para um projeto, uma casa ou para si.
- O Hierofante: você aprende dentro de uma tradição, ou a ensina, e se pergunta quanto dessa tradição faz sentido para você.
- Os Enamorados: uma escolha de verdade entre dois caminhos, duas pessoas ou duas versões de você, e qualquer uma custa alguma coisa.
- O Carro: você avança com força em direção a algo, no embalo da vontade e de muito café.
- A Força: uma força tranquila — lidar com a raiva, o medo ou outra pessoa com paciência, sem impor nada à força.
- O Eremita: você se afastou do barulho para ver o que existe de verdade.
- A Roda da Fortuna: as coisas giram, e não pela sua mão: o momento, a sorte, uma mudança no clima da sua vida.
- A Justiça: você está pesando, decidindo o que é justo, ou encarando a consequência de uma escolha anterior.
- O Enforcado: você está em suspenso, esperando, e a vista de cabeça para baixo está se mostrando útil.
- A Morte: algo está terminando, e você sente que esse fim está abrindo espaço.
- A Temperança: você mistura e modera, procurando o meio-termo entre duas coisas que não se misturam fácil.
- O Diabo: um hábito, um vínculo ou uma crença que você poderia largar e continua escolhendo.
- A Torre: o chão se mexeu; algo em que você se apoiava cedeu, e ninguém avisou.
- A Estrela: uma esperança tranquila depois de algo duro, não certeza, só o primeiro fôlego sincero.
- A Lua: você não sabe bem o que é real, e seus medos e sua intuição falam ao mesmo tempo.
- O Sol: uma fase em que a vida fica mais simples e acolhedora, as coisas dão certo e você pode aproveitar.
- O Julgamento: um chamado que você não consegue mais deixar de ouvir, para prestar contas do passado e responder a algo novo.
- O Mundo: um ciclo está se fechando, e você está na beira do próximo.
Como encontrar a sua
- Pergunte o que mais exige de você. Não o que você quer nem o que teme, mas qual parte da sua semana leva mais de você. Diga em uma frase simples.
- Procure as descrições que mais combinam com o que você está vivendo e permita-se escolher duas cartas. Muitas fases da vida se refletem em duas cartas: quem está se reconstruindo depois de uma Torre costuma estar ao mesmo tempo na Estrela e no Eremita. Se você hesita entre duas, isso diz algo sobre a sua situação — não é simples indecisão.
- Confira com uma tiragem. Abra a Carta do Dia, ou faça uma tiragem de três cartas e pergunte "o que esta fase está me pedindo?". Depois compare. A carta concorda com o seu palpite, discorda, ou mostra o lado que você deixou de fora?
Escreva o seu palpite antes de tirar a carta. Um palpite que não foi escrito é melhorado em silêncio depois, e aí você não terá aprendido nada com as cartas.
A mesma carta, vivida de duas maneiras
Cada uma dessas cartas tem um jeito luminoso de ser vivida e outro escuro. O Imperador pode ser alguém que constrói algo estável, ou alguém que não suporta uma única ponta solta. O Eremita pode ser uma solidão sábia ou simplesmente se esconder. Se a carta que caiu te faz fazer careta, pergunte que lado dela você está vivendo neste mês. A careta costuma ser a resposta.
Passe adiante
O melhor uso desta lista é ajudar alguém a dar um nome ao que está vivendo. Compartilhe com uma pessoa que esteja claramente na Torre, ou com alguém que esteja no Carro e não durma há uma semana. Uma fase fica mais fácil de atravessar quando tem nome, e dá um pequeno alívio ouvir "ah, você está nessa fase".
Se você quer conhecer os vinte e dois
A Jornada do Louco percorre os Arcanos Maiores em ordem, uma carta por manhã durante vinte e dois dias, cada uma com um texto curto e uma pergunta para levar com você. É gratuita, não precisa de conta e espera por você se você pular um dia. Você provavelmente vai perceber que, a cada poucos dias, cai uma carta diferente da lista acima, e é exatamente essa a ideia. E se você quer a história da primeira carta desse desfile, também escrevemos sobre O Louco.
Para um estudo mais longo de cada arquétipo, na sua luz e na sua sombra, existe o Curso de Tarô. Até lá: em qual você está agora?
Readings with Light