Repare em como as pessoas falam do tarô hoje. Uma leitura «ressoou». Uma carta «me descreveu». A Torre «nomeou exatamente o que eu estava vivendo». Quase ninguém diz que as cartas previram alguma coisa — e essa mudança de linguagem, da profecia para o reconhecimento, tem uma origem. Seu nome era Carl Gustav Jung, e o curioso é que ele quase nunca escreveu sobre tarô.
O psiquiatra que levou os símbolos a sério
Jung foi o psiquiatra suíço que rompeu com Freud por uma única e enorme convicção: a de que, sob o inconsciente privado de cada pessoa, existe uma camada mais profunda e compartilhada — o inconsciente coletivo — habitada por arquétipos, figuras e padrões primordiais que todos os seres humanos herdam. O velho sábio. O trapaceiro. A grande mãe. A sombra. A jornada de morte e renascimento. Onde quer que os seres humanos criem imagens — mitos, sonhos, catedrais, contos de fadas — Jung via as mesmas figuras surgirem repetidas vezes.
Agora estenda os vinte e dois trunfos de um baralho de tarô e olhe para eles com essa ideia em mente. Um Mago. Uma Sacerdotisa. Um Imperador e uma Imperatriz. Um Eremita com sua lamparina. A Morte. O Diabo. O Sol e a Lua. Um Louco dando um passo em direção ao desconhecido. O baralho parece uma galeria de retratos do inconsciente coletivo — pintada quinhentos anos antes de a expressão existir.
O que Jung realmente disse
Eis a primeira peculiaridade desta história: todo o edifício do «tarô junguiano» repousa sobre um punhado de comentários. Em um seminário de 1933, Jung disse a seus alunos que as cartas de tarô «são imagens psicológicas, símbolos com os quais se joga, como o inconsciente parece jogar com seus conteúdos» — e que elas se combinam, como os sonhos, com as ideias arquetípicas da transformação. Essa é a citação famosa, e é quase a totalidade de sua opinião publicada.
Mas sua curiosidade ia muito além do pouco que escreveu. Nos anos 1950, Jung encarregou um grupo de estudos de seu instituto em Zurique de investigar os grandes sistemas divinatórios do mundo — o I Ching, a astrologia e o tarô entre eles — e pediu a uma colaboradora, Hanni Binder, que pesquisasse as cartas em seu nome, trabalhando com o antigo baralho de Marselha. Ele buscava responder a uma pergunta que o fascinou até o fim da vida: por que essas práticas tão frequentemente parecem verdadeiras para quem as usa?
Sincronicidade: a ideia que permite que uma carta ao acaso signifique algo
Sua resposta foi uma de suas ideias mais ousadas. Em 1952, Jung publicou seu ensaio sobre a sincronicidade — o «princípio de conexão acausal». Algumas coincidências, argumentava, são significativas não porque um evento causa o outro, mas porque o estado interior e o acontecimento exterior se espelham de um modo que a psique reconhece. Você pensa em um velho amigo; a carta dele chega. Você carrega uma pergunta que não sabe nomear; a carta sobre a mesa a nomeia.
Independentemente do que se pense da teoria, observe o que ela faz pelo tarô: dissolve o velho dilema. As cartas não precisam mais prever o futuro para importar. Um baralho embaralhado se torna um campo onde o momento pode se mostrar — e a leitura passa a ser um ato de reconhecimento, não de previsão. Na prática, Jung ofereceu uma filosofia a quem já sentiu que as cartas dialogavam com a situação, em vez de apenas descrevê-la.
Os escritores que fizeram a ideia crescer
Jung morreu em 1961 tendo construído a ponte sem atravessá-la. A travessia veio uma geração depois, e é a segunda peculiaridade da história: o «tarô junguiano» foi desenvolvido em grande parte por quem lia tarô e recorreu às ideias de Jung, não por seguidores de Jung que recorreram ao tarô.
Em 1970, Eden Gray, atriz que se tornou professora de tarô, descreveu os trunfos como a jornada do Louco — uma alma caminhando pelas cartas da inocência à plenitude, uma ideia com parentesco evidente com a jornada do herói dos mitos. Depois, com poucos anos de diferença por volta de 1980, vieram os livros que completaram a transformação: Jung and Tarot: An Archetypal Journey, de Sallie Nichols, que percorreu cada trunfo à luz da psicologia junguiana; Seventy-Eight Degrees of Wisdom, de Rachel Pollack, que ensinou toda uma geração a ler as cartas como narrativa psicológica; e os livros de exercícios de Mary K. Greer, que direcionaram a leitura para o mundo interior — o tarô feito para si mesmo, como investigação interior. A tenda da cartomante tinha se tornado algo mais próximo do divã de um analista, com imagens melhores.
Os detalhes peculiares que valem a pena guardar
Toda boa história deixa algumas pontas soltas, e as desta são fascinantes. O próprio Jung preferia o I Ching às cartas, e o consultava com seriedade. A correspondência entre seus arquétipos e os trunfos é impressionante, mas imperfeita — os estudiosos ainda discutem qual carta é a anima e onde exatamente mora a sombra, o que talvez seja o desfecho mais junguiano imaginável. E o homem cujas ideias hoje inspiram milhares de livros sobre tarô nunca criou uma tiragem, nunca publicou uma leitura, e provavelmente ergueria uma sobrancelha diante da expressão «tarô junguiano» — reconhecendo, no mesmo instante, por que as imagens funcionam.
Porque esse era seu ponto mais profundo: as imagens não são arbitrárias. São antigas. Mostram as situações às quais uma vida humana sempre retorna — limiares, perdas, tentações, renovações — e é por isso que uma carta tirada ao acaso tantas vezes acerta em cheio, como uma palavra que você estava esperando. O baralho é uma caixa de arquétipos, e um arquétipo é precisamente o tipo de imagem capaz de reconhecer algo em você.
É nesse espírito que nossas próprias leituras são escritas — tire suas cartas e perceba o que elas reconhecem em você, em vez de perguntar o que vai acontecer. Se quiser a história completa de como o baralho viajou das mesas de jogo do Renascimento até essa virada psicológica, nós a traçamos em nossa história do tarô — e se quiser conhecer os arquétipos um a um, em sua luz e em sua sombra, é para isso que existe o Curso de Tarô.
Readings with Light