Nos dois primeiros dias de novembro, boa parte do mundo visita os seus mortos. No México é o Día de Muertos, com fotografias e flores de cempasúchil (os cravos-de-defunto) no altar da família. No Brasil é o Dia de Finados. Na Polônia, quando a noite cai no Dia de Todos os Santos, os cemitérios se enchem de velas. Em boa parte da Europa católica são o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados. Os costumes mudam, mas o instinto é o mesmo: por um dia ou dois, a morte não fica escondida. Ela é convidada a entrar, recebe comida e conversamos com ela.
O tarô tem uma carta para exatamente isso, e ela é a carta mais mal interpretada do baralho. Então, num dia em que muitos de nós pensamos nas pessoas que perdemos, pareceu a hora certa de olhar de novo para a Morte: de onde vem a carta, o que ela tem em comum com essas datas e um jeito gentil de usá-la.
Duas maneiras de encarar o mesmo fato
Muitos hábitos modernos existem para manter a morte à distância. Essas datas fazem o contrário. No México, as famílias montam uma ofrenda: uma mesa com fotografias, velas, flores de cempasúchil, água e a comida preferida das pessoas que recebem em casa por uma noite. Há luto nisso, e também riso, porque os mortos são lembrados como eram, com suas piadas e seus apetites. A UNESCO reconhece a tradição como patrimônio cultural imaterial da humanidade, e é melhor que ela seja descrita por quem a vive do que por nós. O que podemos dizer é o que ela parece entender: lembrar de alguém é algo que se pode fazer de propósito, com as mãos, numa mesa.
De onde vem a carta da Morte
As primeiras cartas de tarô foram feitas na Itália do século XV, como um jogo de cartas cujos trunfos se chamavam trionfi. Historiadores costumam ligar a ideia aos cortejos triunfais da época e ao poema Os Triunfos, de Petrarca, em que a Morte tem o seu próprio triunfo. A Morte já tinha, aliás, uma longa vida em imagens antes das cartas: no fim da Idade Média, a dança macabra mostrava um esqueleto levando pela mão um papa, um imperador, uma criança e um camponês, na mesma fila, para o mesmo lugar. A carta herdou essa imagem. Em muitos baralhos de Marselha ela nem tem nome, só o número treze, como se houvesse relutância em escrever a palavra. Se você quer a história longa de como o baralho viajou, contamos neste texto sobre como o tarô saiu do jogo de cartas e virou oráculo.
A grande niveladora
Na imagem de Rider-Waite, um esqueleto de armadura cavalga um cavalo branco. Um rei jaz caído sob os cascos, um bispo implora, uma criança estende flores e, ao longe, entre duas torres, o sol nasce. É a dança macabra num único quadro: aqui a posição social não compra nada, e o caminho é o mesmo para todos.
O México tem a sua própria imagem para a mesma ideia. Por volta de 1910, o gravador José Guadalupe Posada fez a gravura de um esqueleto elegante, de chapéu largo e enfeitado, hoje conhecido como La Catrina, um lembrete de que sob as roupas finas somos todos parecidos. Duas tradições, separadas por séculos e por um oceano, dizem a mesma coisa, direta e gentil: todo mundo vai, então o que importa é como você usa o tempo e a quem você diz o que sente.
O que a carta pergunta, e o que não pergunta
A carta da Morte não anuncia uma morte. Numa leitura, quase sempre fala de algo que terminou, ou está terminando: um trabalho, uma amizade, uma versão de você, uma esperança que você carregou por muito tempo. A pergunta dela é mais quieta que a imagem: o que já terminou e você ainda carrega? Voltamos a ela na Jornada do Louco, onde a Morte chega no dia 14 como adubo, não como catástrofe: deixar ir o que já cumpriu o seu papel, para abrir espaço ao que vem.
Em um dia dedicado à memória de quem partiu, essa pergunta ganha um tom mais delicado. O que terminou, e o que disso você quer guardar? Lembrar não é se prender ao passado. É decidir, de propósito, o que você leva adiante.
Uma tiragem de lembrança
Se quiser aproveitar o dia, aqui vai um jeito simples de fazer isso com três cartas. Pense numa pessoa, ou numa coisa, de que você sente falta: alguém que morreu, um bicho de estimação, uma casa, uma versão da sua vida. Se fizer sentido, acenda uma vela. Depois disponha três cartas, uma para cada pergunta:
- O que isso me deu? O presente, o hábito, a frase que você ainda ouve na voz da pessoa.
- O que ficou inacabado? O que você não disse, não perguntou ou não perdoou.
- Como posso manter isso vivo? Algo pequeno e possível neste mês: fazer o prato dela, contar a história dela, ligar para uma pessoa querida por vocês.
Você pode tirar cartas do seu próprio baralho, colocá-las sobre uma mesa e receber a interpretação aqui, ou pedir uma tiragem de três cartas na página inicial com uma pergunta como "o que eu levo dessa pessoa e o que cabe a mim fazer com isso?". Anote o que você vê antes de ler o significado.
O que o tarô não pode fazer
O tarô não fala com os mortos, e não vamos fingir que fala. O que ele pode fazer é ajudar os vivos a conversar com a própria memória, o que não é pouco. Se alguém partiu há muito pouco tempo, talvez você não queira cartas, e tudo bem: sente-se com uma fotografia e uma vela. Isto é reflexão, não terapia, e se o luto pesa esta semana, que isso seja um motivo para ligar para alguém de confiança.
Guarde o que você escreveu
Seja o que for que surgir, o Diário guarda, e daqui a uma semana você pode perguntar o que ainda faz sentido. A Carta do Dia de hoje é outra porta tranquila. E se a Morte anda aparecendo nas suas leituras, o Curso de Tarô permite explorar seu significado com mais profundidade.
Readings with Light