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Do jogo de cartas ao oráculo: como o tarô conquistou a Europa e depois o mundo

17 de agosto de 2026

Em algum lugar da Europa, uma família vai se sentar à mesa depois do jantar e jogar algumas rodadas de tarô — fazer lances, ganhar vazas, contar pontos — sem ver nisso nada de místico. Em outro lugar, provavelmente a poucas ruas dali, alguém vai dispor três cartas dessa mesma família de baralhos e perguntar sobre o amor. Os dois são herdeiros do mesmo objeto. A história estranha e maravilhosa do taro é a história de como um único baralho passou a viver duas vidas completamente diferentes.

Nasceu na mesa de jogo, não no altar

A história do tarô começa no norte da Itália nas décadas de 1430 e 1440, nas cortes de Milão, Ferrara e Bolonha, como um jogo de cartas chamado trionfi — “triunfos”. Alguém teve a brilhante ideia de acrescentar ao baralho comum um quinto naipe de cartas ilustradas: um desfile de figuras que qualquer pessoa em uma cidade renascentista reconheceria — o Imperador e o Papa, a Roda da Fortuna, o Eremita, a Morte, o Diabo, o Sol e a Lua. Eram trunfos permanentes, cartas que venciam os naipes comuns, e a inovação pegou. Os jogos de vazas com trunfos descendem dessa ideia.

Os primeiros baralhos que sobreviveram eram objetos de luxo — as cartas douradas Visconti–Sforza foram pintadas à mão para a família de um duque e se pareciam mais com joias do que com peças de jogo. Mas as versões impressas logo tornaram o jogo acessível, e ele viajou: atravessou os Alpes rumo à França e à Suíça, chegou às terras de língua alemã como Tarock e voltou à Itália como tarocchi. Durante cerca de trezentos anos, o tarô foi apenas isso. Ninguém o usava para prever o futuro. Os sermões da época que condenavam os dados e as cartas como vícios tratavam o taro como mais um jogo.

Ao longo do caminho, as cartas se padronizaram. Por volta de 1700, os impressores de Marselha consolidaram o modelo de xilogravuras — as imagens das quais descende a maioria dos baralhos posteriores —, não por convicção esotérica, mas pelo mesmo motivo que leva qualquer fabricante a padronizar um produto: vendia bem. Para ver como eram aquelas cartas, colocamos uma carta numerada de Marselha ao lado de sua descendente moderna em nosso artigo sobre o baralho Rider–Waite.

Paris, 1781: o ensaio que mudou tudo

É então que chega o ponto de virada de toda a história. Em 1781, o pastor e estudioso francês Antoine Court de Gébelin publicou um volume de sua extensa enciclopédia Le Monde primitif com um breve ensaio sobre o jogo de tarô. Nele, afirmou — sem nenhuma prova além da própria convicção — que os trunfos não pertenciam a jogo algum, mas eram as páginas sobreviventes do Livro de Thoth: a sabedoria sagrada perdida do Egito Antigo, transportada clandestinamente através dos séculos sob o disfarce de um passatempo.

A Paris da década de 1780 era fascinada por mistérios antigos, e o ensaio encontrou seu leitor perfeito: um comerciante de gravuras e jogador de cartas que escrevia sob o nome de Etteilla. Ele se tornou a primeira pessoa da história a trabalhar profissionalmente com a leitura de tarô no sentido moderno e, em 1789, publicou o primeiro baralho criado para a adivinhação, e não para o jogo. As imagens e as palavras-chave impressas seguiram caminhos diferentes quase de imediato — seu Mago traz a legenda Maladie, doença —, mas a profissão que ele inventou nunca desapareceu.

O Mago do tarô Grand Etteilla, impresso com a palavra-chave Maladie, que significa doença O Três de Espadas do tarô Grand Etteilla, com a legenda A Nun
O Grand Etteilla (c. 1789) — o primeiro baralho criado para ler as cartas, e não para jogar, por quem primeiro transformou o tarô em profissão.

O século do ocultismo

A França do século XIX tomou o romance de Court de Gébelin e ergueu uma catedral sobre ele. O mago e estudioso Éliphas Lévi vinculou os vinte e dois trunfos às vinte e duas letras do alfabeto hebraico e à Cabala, transformando um costume solto de adivinhação em um sistema: uma arquitetura simbólica que ocultistas podiam estudar, desenvolver e discutir. No fim do século, o centro de gravidade já havia atravessado o canal da Mancha rumo a Londres, onde a Ordem Hermética da Aurora Dourada incorporou o tarô ao seu programa de rituais e correspondências.

Dessa sociedade veio a dupla que deu ao tarô seu rosto moderno: A. E. Waite e a artista Pamela Colman Smith. O baralho de 1909 deu uma cena a cada carta, e o livro que o acompanhava ensinou ao mundo a Cruz Celta. A partir daí, qualquer pessoa podia pegar um baralho e começar. O que havia sido um jogo da corte, depois uma moda parisiense e então uma ferramenta de estudo de uma sociedade secreta tornou-se algo que uma pessoa curiosa podia aprender sozinha à mesa da cozinha.

Como uma curiosidade europeia ganhou o mundo

O século XX fez o resto. O baralho chegou à produção em massa — a partir de 1971, uma única editora norte-americana imprimiu milhões de exemplares do Rider–Waite–Smith —, e a cultura de massa descobriu o baralho: a contracultura das décadas de 1960 e 1970 acolheu o tarô, a astrologia e o I Ching como ferramentas de autoconhecimento. A psicologia também lhe emprestou um novo vocabulário. Sob a influência de Jung, muitas pessoas passaram a tratar as cartas menos como profecias e mais como arquétipos: uma forma de enxergar a própria situação de fora. Sem fazer muito alarde, essa foi a maior mudança no significado de “uma leitura” desde Etteilla.

E o jogo nunca morreu, detalhe que a maioria das histórias esquece. O tarot francês ainda é um dos jogos de cartas mais praticados na França, com federação nacional e torneios; variantes do Tarock seguem vivas de Viena aos Alpes. A Europa preserva, como nenhum outro lugar, as duas vidas do tarô ao mesmo tempo: o baralho de quem joga vazas e o baralho de quem lê as cartas, primos que descendem do mesmo antepassado italiano.

Hoje, é a tradição da leitura que circula pelo planeta. O Brasil tem uma das culturas de tarô mais vibrantes do mundo — por isso este site fala português. Uma nova geração conheceu as cartas não em livrarias ocultistas, mas nas redes sociais, onde o tarô encontrou um público que seus defensores vitorianos jamais poderiam imaginar. O padrão se repete a cada onda: as cartas viajam, e cada lugar novo faz perguntas um pouco diferentes.

O que sobreviveu à viagem

Retire cinco séculos de histórias acumuladas — as sociedades secretas, a contracultura — e algo duradouro permanece: setenta e oito imagens da experiência humana, organizadas o bastante para estruturar um pensamento e abertas o bastante para acolhê-lo. É por isso que o jogo se tornou um oráculo e que o oráculo continua encontrando novas pessoas dispostas a consultá-lo. Um desfile de triunfos pintado para um duque revelou-se um espelho no qual quase todo mundo consegue se enxergar.

Se esta história despertou sua vontade de experimentar o espelho, tire três cartas e veja o que as imagens dizem antes de consultar qualquer significado. E, se quiser entender por que elas dizem isso — carta por carta, em sua luz e em sua sombra —, é exatamente para isso que existe o Curso de Tarô, começando por uma aula gratuita sobre esta mesma história.

✦ Leitura de Tarô